quinta-feira, 4 de junho de 2009

BRUXAS

“Yo no creo en brujas, pero que las hay las hay “. De certa forma todos crêem que elas existam até hoje, talvez dentro de cada mulher. É aquele lado mais místico, supersticioso e sombrio que fazemos de conta não existir. Como se nem soubéssemos que o tínhamos escondido, em um canto pouco vasculhado do nosso ser. Tememos descobrir as coisas feias que já fizemos através dela e culpamos outrem e nos forçaram a mostrar esse lado “feio”. Acredite, ela está dentro de nós esperando um bom motivo para se revelar.
O lado bom de reconhecermos que não somos tão boas assim é se permitir errar conscientemente, apenas por preguiça de fazer o que é certo. Usar atalhos, fazer nossos feitiços. Feitiços do tipo da “bruxinha boa do oeste”, que age só pelo bem, ainda que seja pelo bem dela mesma! O disfarce de toda bruxa é ser discreta, o que é diferente de ser dissimulada, afinal estamos aprendendo a gostar do que somos. Quando a vida nos permite certa normalidade e constituímos família, a reclamação mais comum é o sono pesado dos respectivos companheiros, sem perceber que no fundo isso é misericórdia divina. Por quê? Imagine se aquele príncipe encantado dormindo ao nosso lado acordasse, no meio da noite e nos flagrasse indo ao banheiro, descabeladas, sem maquiagem, cambaleante, amarrotada de sono? Faça o teste e descubra! Quando levantar de madrugada, antes de ir ao “trono da rainha” dê uma paradinha em frente ao espelho, acenda a luz e se olhe. Mesmo com os olhos embaçados não pense ser uma ilusão de ótica. Não se assuste, nem se belisque como quem tenta acordar de um pesadelo; é apenas a nossa imagem real. Assim calculadamente acordamos antes, fazemos uma maquiagem bem discreta, arrumamos a cabeleira, escovamos os dentes e nos deitamos com aquele ar de pele fresca natural. E eles despertam com uma beleza “nada artificial” e continuam “apaixonados”.
As bruxas de hoje são descoladas, antenadas, vitaminadas! Lembram-se dos “chapéus pretos e ponte-agudos” que escondiam aquele cabelo tipo palha de aço? Recurso obsoleto... Agora temos alisamentos, alongamentos, até a escova e inteligente! Tons dos mais variados são comprados em qualquer farmácia. Verrugas no nariz? Depois do Ivo Pitangui, virou passado. Podemos até escolher o modelo de nariz tipo Barbie e ir além; boca estilo Angelina Julie. Assim como as rugas tiveram seu fim com botox. O vestido preto que mais parecia uma toga, no qual éramos confundidas com uma cortina de mau gosto, foi substituído por jeans, mini-saias, blusinhas baby-look, sem esquecer o “chik” pretinho básico. São tantos acessórios e os modernos recursos que só o dinheiro é o limite.
Progredir é a lei, nossas técnicas estão mais sofisticadas. Os utensílios arcaicos foram trocados por alta tecnologia. Caldeirões, aqueles que para alcançar a borda precisávamos de escada, fazer uma força sobre-humana para mexer, virou relíquia de museu. Hoje temos fogões a gás, com timer que é um luxo e ainda o microondas. Panelas antiaderentes e formas refratárias.
Aqueles ingredientes complicados como: asas de morcego, ovos de aranha, pó de cobra e etc (impossível relembrar todos depois de tanto tempo) basta ir a um hipermercado para encontrar os produtos mais exóticos, embalados a vácuo e aprovados pelo ministério da saúde, incluindo a versão light e diet. Em caso de constrangimento na hora da compra pode usar o serviço delivery. As poções já vêm engarrafas como o Absinto por exemplo. Aromas sofisticados produzidos por grifes famosas como Chanel. Vassouras desconfortáveis nunca mais, voamos de 1ª classe sim senhor! Tudo se torna mais sutil, mais leve, a sedução é consentida pela vítima, que se entrega por livre e espontânea vontade.
As antigas teorias e tradições de que nossa única intenção era fazer puramente o mal pode ter outro sentido hoje. Embora tenhamos uma personalidade um tanto egoísta, orgulhosa, vaidosa e competitiva; se analisadas por outros ângulos; poderíamos dizer que isso é vontade de ser feliz. Toda vez que um feitiço é bem sucedido, pelo menos duas pessoas se sentem felizes: a bruxa e o seu objeto de desejo. Do ponto de vista de quem partilhava o mesmo desejo que a “tal bruxa”, resta à inveja de não ter conseguido o que queria. Alimenta-se então, da mórbida espera de um dia ver aquela bruxa queimar na fogueira. Engraçado: sendo a bruxa um ser maldoso, não há histórias que relatem que ela tenha queimado um ser humano, por mais “bruxa“ que fosse, a queimada era sempre ela!
É uma injustiça que essas dedicadas “alquimistas” sejam condenadas a uma pena tão cruel. Afinal até as crianças sabem que não se deve brincar com fogo! As pobrezinhas são sempre desmascaradas e nunca conseguem um final feliz, são condenada a solidão eterna. Será que esse é o merecido fim de quem não pôde ser como é, esforçando-se para ser quase invisível, morando em castelos mau localizados, restando-lhe o sapo como companhia. E o príncipe? Fica com a “songa-monga” da princesa que sofreu, chorou sem reclamar, mas também não lutou, só para ser aquela mulher frágil que precisa ser salva.
Esse instinto que até hoje corre em nossas veias, herdamos de quem? Essa “intuição feminina”, esse “sexto sentido”. Analisem vocês homens, senhores da razão imparcial, não seriam as bruxas apenas fadas sem asas?

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